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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Fernando Pessoa sente e se revela através de enigmas e mistérios

Teus olhos entristecem

Teus olhos entristecem.
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.

Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.

Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.

Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.

Fernando Pessoa
(1888-1935)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Fernando Pessoa compara viajar a ser outro constantemente

j. japonês by marcus peixoto
j. japonês, a photo by marcus peixoto on Flickr.
Viajar

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.


Fernando Pessoa, 20-9-1933

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Quero-te para sonho, não para te amar





    Dorme enquanto eu velo... 
    Deixa-me sonhar... 
    Nada em mim é risonho. 
    Quero-te para sonho, 
    Não para te amar. 
    A tua carne calma 
    É fria em meu querer. 
    Os meus desejos são cansaços. 
    Nem quero ter nos braços 
    Meu sonho do teu ser. 
    Dorme, dorme. dorme, 
    Vaga em teu sorrir... Sonho-te tão atento 
    Que o sonho é encantamento 
    E eu sonho sem sentir.
    Fernando Pessoa