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quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Santo Tomaz de Aquino condena a luxúria, mas tolera a prostituição
"Aqueles que estão na autoridade toleram corretamente certos males, a fim de que certos bens não sejam perdidos, ou que certos males não sejam incorridos: assim diz Agostinho. Se você abole prostitutas, o mundo será convulsionado com luxúria". A afirmação é de Santo Tomaz de Aquino (1225-1274) na Summa Theologica, em que discorre sobre a prática da prostituição.
Em síntese, o dominicano aceitava a prostituição como necessária, numa compreensão deixada para os estudiosos da Filosofia, de que havia uma acomodação dos pensadores com males comuns de suas respectivas épocas. Daí que Aristóteles tolerou a escravidão e a Igreja Católica não repreendia o tráfico de escravos. Também durante séculos se cultuou o sacrificio humano. A explicação era que a compaixão estaria embotada por uma super exposição.
Interessante notar, como assinalou Bertrand Russell, que "filosficamente, o sistema tomista talvez não seja tão importante como poderia sugerir a sua influência histórica. Sofre com o fato de que suas conclusões são inexoravelmente impostas de antemão pelo dogma cristão". Dai a questão é, se ele afirma que a luxúria é pecado mortal, porque entende que a prostituição deva ser permitida pelo Estado? Há uma inclinação utilitarista?
A foto ao lado é de Natinho Rodrigues, em 13 de janeiro deste ano, por volta das 2 horas da madrugada. Foi feita com uma máquina Sony Cyber. A ideia era fazer flagrantes de pontos de prostituição na Praia de Iracema, que de coração afetivo e berço da boemia cearense transformou-se em área degradada e marginal. Um desses locais foi verificado exatamente em frente à Delegacia de Proteção ao Turista.
Para o polemista católico, Roberto Cavalcanti, historicamente, prostituição foi tolerada como um mal necessário por toda a Idade Média ao longo de descrições similares à posição de São Tomás. Alguns mesmo pensavam que a disponibilidade da prostituição protegia a integridade das famílias.
"A reação da Igreja esteve por procurar a reforma das prostitutas através de missões de resgate e conventos para penitentes. O Papa Inocêncio III elogiou aqueles que casavam com uma prostituta, e Gregório IX encorajou solteirões a casarem com mulheres arrependidas ou que entrassem no convento. Gradualmente, sistemas de regulação local emergiram e algumas cidades tinham bordéis públicos para taxação. O movimento legal para suprimir a prostituição é relativamente recente na história. Não era assim até o fim do século quinze, visto que a opinião social mudou como um resultado de temor concernindo a dispersão da sífilis que destruiu as populações primeiro do sul, depois do norte da Europa. Os movimentos Protestante e de Reforma Católica contribuíram para pressionar o fechamento de bordéis. Mas pelo fim do século dezessete, a supressão da prostituição mudou as preocupações com limpeza e higiene. A Grã-Bretanha não tornou seus bordéis ilegais até o meio do século dezoito, enquanto os Estados Unidos não aboliram legalmente esses infames distritos da luz vermelha até 1912, em conjunção com a aprovação da Lei Mann do Congresso, proibindo o transporte entre Estados de mulheres para propósitos imorais. O que é interessante a respeito da posição de Santo Tomás sobre a prática da prostituição é o limite que ele põe sobre o estatuto civil para legislar o comportamento. Ele está ciente do papel que a condição moral de uma sociedade toca em conduzir política pública. O estatuto civil pode somente reclamar até onde a moralidade de seus cidadãos possa tolerar. Nisso, Santo Tomás está mais de acordo com as visões políticas modernas e contemporâneas.
"Ele é também contrário à lei reclamar um nível de comportamento moral pessoal além do que é necessário para o bem comum e, neste sentido, é oposto a muitas correntes do politicamente correto que existem hoje. Tolerando a prática da prostituição apesar de registrar sua grave pecaminosidade, Santo Tomás tanto reconhece a condição concreta da humanidade e a necessidade da graça que transcende quaisquer soluções do tecnicismo da política pública. Ele também demonstra um cuidado benevolente para aqueles envolvidos na vida da prostituição por reconhecer seus direitos monetários enquanto ao mesmo tempo estipulasse condições para possível reconciliação com a Igreja. Fazendo isso, evita um hipermoralismo por detestar o pecado, mas amar o pecador".
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Platão relata como foram os últimos momentos de Sócrates até o suicídio

"Conhece-te a ti mesmo". É a pilastra fundamental da filosofia de Sócrates (469-399 A.C).
A verdade é que ele não deixou nada escrito e tudo que sabemos nos foi passado pelos seus discípulos principalmente Platão e Xenofontes. Surge, então, um problema ao se discernir entre aquilo que foi dito por Sócrates, em carne e osso, ou aquilo que é atribuído à sua figura histórica e até mitológica. Esse é o caso dos últimos dias do filósofo grego, conforme narração de Fedão, que conta ter testemunhado quando se preparava para suicidar-se com veneno. O relato é empolgante e nada revela de angustiante ou da relutância em morrer, após ter sido julgado por corrupção de jovens (que também faz parte de outra obra de Platão, tratando exclusivamente do julgamento). Ao contrário de Aristóteles, que via o homem a partir de suas experiências, Platão acreditava que havia um mundo de sensibilidade e aquele ideal. Daí devemos dar os devidos descontos sobre o que é verdade ou não dos últimos instantes de Sócrates:
FEDÃO
Escrito em 360 A.C.
Personagens do Diálogo: Fedão, que é o narrador do diálogo a Equécrates de Fliunte, Sócrates, Apolodoro, Símias, Cebete, Critobulo, atendente da prisão
Cena: A prisão de Sócrates (*)
I – Equécrates — Estiveste tu mesmo, Fedão, junto de Sócrates no dia em que ele tomou veneno na prisão, ou ouviste de alguém?
Fedão — Não, eu mesmo, Equécrates.
II – Equécrates — E as condições em que morreu, Fedão? Quais foram suas palavras? Como se houve em tudo? Quais dos seus familiares se encontravam ao seu lado? Ou as autoridades não permitiram que entrassem, vindo ele a morrer privado de assistência dos amigos?
Fedão — De forma alguma; vários estiveram presentes; em grande número, mesmo.
Equécrates — Então, procura contar-nos com a maior exatidão possível como tudo se passou, no caso de dispores de folga.
Fedão — Disponho, sim, e vou tentar expor-vos o que se deu. Para mim, nada é tão agradável como recordar-me de Sócrates, ou seja quando falo nele, ou quando ouço alguém falar a seu respeito.
Equécrates — Pois podes ter a certeza, Fedão, de que teus ouvintes estão nessas mesmas condições. Esforça-te, portanto, para contar o caso com todas as minúcias
Fedão — Era por demais estranho o que eu sentia junto dele. Não podia lastimá-lo, como o faria perto de um ente querido no transe derradeiro. O homem me parecia felicíssimo, Equécrates, tanto nos gestos como nas palavras, reflexo exato da intrepidez e da nobreza com que se despedia da vida. Minha impressão naquele instante foi que sua passagem para o Hades não se dava sem disposição divina, e que, uma vez lá chegando, sentir-se-ia tão venturoso com os que mais o foram. Por isso mesmo, não me dominou nenhum sentimento de piedade, o que seria natural na presença de um moribundo. Também não me sentia alegre, como costumava ficar em nossa práticas sobre filosofia. Sim, porque toda nossa conversa girou em torno de temas filosóficos. Era um estado difícil de definir, misto insólito de alegria e tristeza, por lembrar-me de que ele iria morrer dentro de pouco. As mais pessoas presentes se encontravam em condições quase idênticas, umas rindo, outras chorando, principalmente Apolodoro. Conheces o homem e sabes como ele é.
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Longa jornada com Kant, Maquiavel, Buda e vento no rosto

Fico feliz em saber que Zen e a Arte de Manutenção de Bicicletas, de Robert M. Pirsig, permanece sendo um best-seller. depois de ser rejeitado por 121 editoras, estando marcado no livro do Guinness. Li este livro em 1984. Pai pilotando e filho na garupa atravessam costa a costa dos Estados Unidos numa motocicleta. Enquanto a viagem transcorre, a obra, narrada em primeira pessoa, tenta conciliar questões básicas de manutenção do veículo, numa longa viagem de férias, como também se debruçar questões filosóficas básicas entre Aristóteles e Platão.
Fernando Gabeira também leu e disse que, desde então, não conseguia mais sequer ver um ventilador quebrado em sua casa. Pirsing nos ensina a ser elementar numa longa viagem, que tipo de roupa se deve usar na estrada, os produtos de higiene e primeiros socorros e peças e ferramentas utilizadas para os serviços mecânicos.
A aventura caminha num emaranhando de citações, em que se fala de Kant e Buda. O Ocidente, o Oriente e a qualidade são palavras elementares do livro, muito repetidas e com reflexões complementares. Seria o equivalente a se divulgar pelo twitter uma viagem. Não é bacana? Mas isso foi em 1975.
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