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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Zanzibar e o mundo da fantasia que extravasa no Carnaval



Carnaval é tempo de se vestir e viver fantasias, de extravasar sentimentos interiores que normalmente, seriam inconfessáveis. Daí a explicação porque tantos homens, machistas por assim dizer, se vestem de mulheres, e estas, normalmente recatadas, usam roupas sumárias, não se importam com as posições das pernas e chegam a ser confundidas com prostitutas. Desde a década de 50 que esse fenômeno é costumeiramente visto pela imprensa, que aproveita para tomar posições conservadores e, muitas vezes, cínicas.

Capa da Revista o Cruzeiro do Carnaval de 1952
Há uma necessidade premente de se aproveitar estes dias de feriado para uma fuga da realidade, para se viver momentos mais compensadores, que nos são negados nos demais dias do ano, quando somos tolhidos por normas rígidas, a repressão dos instintos a necessidade de se viver numa sociedade, que a exemplo da família (no sentido lato), não é bem aquela que escolhemos, mas não pudemos rejeitá-la, em alguns casos até mesmo amá-la, porque são impositivas.
Este ano, o carnaval não deverá ser diferente daquele que passou. Vamos nos fartar de mulheres semi peladas nos desfiles das escolas de samba, homens com trajes exageradamente femininos e pouquíssima criativade de  adereços e músicas próprias para o período.
As lembranças mais fortes que tenho da folia momina, mesmo já passados muitos anos desde os meus 18, ainda deixaram marcas indeléveis. Era um domingo à noite em Paracuru, quando o grande hit  Zanzibar zoava pela praça da matriz naquela simpática cidade litorânea do Ceará. Uma composição que não diz coisa com coisa, temos que reconhecer,  do compositor e arquiteto cearense Fausto Nilo. Sem entrar em maiores detalhes de como tudo isso aconteceu, porque sei que não é interessante para o meu estimado, alegre e folião leitor, tive uma parada cardíaca.
Uma das coisas que me lembro é de uma ambulância com suas sirenes histriônicas, rasgando estradas ou avenidas, que pensei não ser mais desse mundo. Foram três dias de coma. Quando acordei, num leito do Hospital de Emergência e Urgência IJF, ainda no seu prédio antigo na Rua Padre Valdevino,  vi ao meu lado uma  prancheta com um laudo escrito no papel pregado: tentativa de suicídio. Me rebelei, protestei. Chamei a enfermeira e disse que se tratava de um engano. Um absurdo. Amava viver. Ela, que virou pernsonagem de meu livro com traços físicos parecidos com a Clementina de Jesus, me falou frases ainda mais desconexas do que a música de Zanzibar. Parecia zangada comigo. Resumindo, nunca mais  passei o carnaval em Paracuru.


Zanzibar
Elba Ramalho
No azul de Jezebel
No céu de Calcutá
Feliz constelação
Reluz no corpo dela
Ai tricolor colar
Ás de maracatu
No azul de Zanzibar
Ali meu coração
Zumbiu no gozo dela
Ai mina aperta a minha mão
Alá me "only you"
No azul da estrela
Aliás bazar da coisa azul
Meu "only you"
É muito mais que o azul de Zanzibar
Paracuru
O azul da estrela
O azul da estrela

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sim, Teófilo, sei que a dor é bem maior que a sentida por Alfred Prufrock

Sim, Teófilo, sei que a dor é bem maior que a sentida por Alfred Prufrock. Portanto, não me alongarei em mais hermetismo que disfaça o torpor. A vida é breve e não há nenhuma compensação em prolongarmos o teu, o meu ou o nosso calvário. As chagas e as cicratrizes não desaparecem. Vão se somando pelo corpo, às vezes queridas como marcas de guerra. Outras se assemelham a gado marcado para o abate.
Quero me desculpar  porque saí às pressas de tua casa, quando ouvi entoar teus desesperados gritos, com sons estridentes de Viskningar Och Rop, do Bergman. Não foi indiferença. Eu tinha raiva e naquela tarde procurei me resignar, pois era preciso manter viva a todo custo aquela chama.  A todo custo aquela chama não podia apagar. Por isso, me desviava o pensamento, evocava os tempos das mulheres que entravam e saíam da tua casa, dos aromas que exalavam do aconchego do lar: a almíscar, a alfazema, a cannabis, o álcool e, agora, prenuncia-se o do enxofre.
Havia elegância para tuas conquistas e as parceiras retribuiam com a felicidade dos saciados. Tanta satisfação, euforia e êxtase não seria pecado? Escarnecia. Enquanto se falava dos livros sobre como vencer os tormentos, viveste todas as pedogogias, todas as estratégias vivendo. Sóbrio ou não, procurava ensinar essas manobras. Dizia-se comandante de nuvens e das tempestades. Fantasiava poderes que não tinha, apenas para ser mais didático.
Evocava  o escárnio contra os boçais, dos avarentos e daqueles que não sabem chorar, como eu. Tu sabes que nunca choro e nem me faço de vítima. Recordo bem quando uma tragédia anterior e parecida com a tua se abateu sobre nós. Como um infante, estavas à frente. Muito antes, muito antes, tentei tornar mais vivos, mesmo que isso me custasse um preço caro, os impasses noturnos naquela antiga casa, quando ainda adormecido, adolescente, o sorriso de cordeiro sempre disponível, disse-me sério e triste: que sofrimento.
Aprendi muito pouco sobre as ordens que foram dadas aos apóstolos, sobre os princípios que deveriam nortear a igreja primitiva. Porém, mal saí dos livros de Moisés. Não se somavam apenas 12 mandamentos. Existiam mais de 700 preceitos. Mais desculpas? Como disse, não vou me alongar.
Lembro-me muito bem dos dias que finquei pregos grossos nas estacas tão logo proferia ofensas contra o meu irmão. Lembro-me quando os retirei dos troncos de árvores mutiladas, tão logo meu ódio foi aplacado, na retórica do perdão. E forte ainda são as lembranças deixadas pelas marcas do ferro violando furiosamente a jurema. Existem o perdão e as estampas sequeladas do mal que não se desfaz.
Oh, talvez me lembre de Long Day's Journey Into Night, de Eugene O'Neal. Há muitas rotas de fuga, como a rudeza, a vulgaridade, o hedonismo. A música de pequenas acordes e repetidos bordões. A fantasia berrante e os sabores de limão, ácido e vinho. Mas seria mais pertinente nesta ocasião, rogar para o livro que fale dos céus, das virgens, dos querubins, do manjar...Torá? Alcorão? Livro de Vedas?
Como católico, melhor que peça a intervenção de Maria, Agostinho, Inácio, Francisco, Marta, Paulo, Mateus, João, Lucas, Paula Francinete, Luzia, Mônica, Cecília, Madalena, Tiago, Rita de Cássia, Afonso, Bernardo, João da Cruz, Teresinha, Clara, Bárbara, João Bosco, Bento, Rosa, Luiz e todos aqueles que morreram na crença e na certeza da salvação, redenção e na ressurreição. Em nome de Jesus.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Dylan não é para os loucos, como ossos não são para os cães


Era um  homem de estatura baixa, magro, de cabelos pretos, lisos e cortados à moda de Mick Jagger. Inconfundíveis traços indígenas e caboclos revelavam sua nordestinidade, em meio a maneirismos exóticos, como o sujo casaco verde oliva do Exército que vestia frequentemente. Havia parado em frente à porta de minha casa, de onde escutava o som alto da radiola, tocando um disco de Bob Dylan.
"Em todo o bairro, você foi o único que ouvi gostar dele (Dylan)", explicou. Sua permanência naquela região litorânea não durou mais que um mês. Muitos gostavam pela natureza exuberante. Se olhava para um lado havia dunas gigantes, que chegavam até o mar. Então, extravasava  uma sensação estranha de não se saber quando terminava o deserto e quando começava o oceano. Se olhava para um outro lado, contemplava-se a vegetação escura do mangue e, mais à frente, os ciprestes fálicos e gigantes tentando varar as nuvens.
Os atrativos não o encantavam, com suas evocações do interior, ora severo e seco, ora verde e promissor.
Ao longo do período da sua permanência,  meus sentimentos variavam da rejeição, pelas suas idiossincrasias, à admiração. Só algum tempo depois fui descobrindo que se tratava de um grande desenhista e pintor de traço singular, conhecido por Hermó. Morou num prédio de luxo na Beira Mar e, enlouquecido pela traição de amigos e pela humanidade cruel, como me diziam, resolveu enterrar seus quadros na areia da praia e virou um ser errante, sem endereço certo.
Um de seus mais famosos desenhos contava a história de um preso, cujo título era "O Prisioneiro". Este vivia  num mundo hostil, tendo que se igualar em perversidade aos seus companheiros de presídio para não sucumbir. Mesmo assim, o personagem mantinha a hilaridade e, especialmente, a postura gentil,  bem  melhor do que muitas pessoas que conheci depois, muito mais selvagens e pusilânimes. Não porque precisavam se proteger por conta do instinto de sobrevivência e sim pela qualidade da índole. Quanto ao desenho, um dia o preso foi solto e nunca mais se viu nas tiras de jornais ou em lugar algum.
O carrtunista, ou melhor, o versátil artista não permitia que ninguém o tocasse. Dizia que assim estaria lhe roubando sua aura. "Cada ponto de nosso corpo, traz uma imensa energia. Veja como trabalha a acupuntura", ensinava. Certa vez, quando eu o acompanhava jantando uma bisteca de boi num restaurante, chegou a trocar um olhar carinhoso com um cachorro que lhe fitava. De repente,  jogou toda a carne para o animal, enquanto ele, o racional e passional,  ficou lambendo o osso da costela. Sempre antes de tomar um copo de cachaça, fazia uma imensa careta. Justificava que se antecipando ao horror causando pelo álcool queimando sua garganta, assim a bebida lhe cairia mais suavemente. Depois de engolir todo o líquido, esboçava um  sorriso tão ligeiro como um animal fugindo para sua toca. Naquela época, não existia uma clara compreensão da arte perfomática, onde se incluiria.
Ele dormia numa casa localizada na mesma alameda estreita onde eu residia com meus pais. Não perguntei como ele tomou posse do lugar, com a energia elétrica cortada e iluminada por velas. Constituía-se numa moradia ampla, com três quartos, sala e cozinha. Não possuia móveis. Em um dos quartos, a rede sempre armada. Ali, sabia-se, serviu de esconderijo (ou aparelho) para militantes da esquerda, que eram caçados pela repressão militar. Esparramava-se pelo chão  uma grande quantidade de jornais panfletários e edições antigas do Pasquim. Dentre os livros deixados pelos ex-moradores, estava o Manifesto Comunista. Elisa, então minha namorada, dizia que aceitava tudo de mim: fumar maconha, andar com um hippie, perder o gosto pela arte clássica. Menos reviver, pateticamente, a paródia de Trostki e Rosa Luxemburgo. Isso sim, para ela, virava uma piada.
Meu pai nunca expressou veementemente sua opinião sobre essa ou qualquer outra influência sobre mim. Uma das poucas frases que ouvi a respeito do esconderijo dos subversivos discorria sobre o estigma marginal, tanto no sentido sociológico como policial. Já minha mãe, treinada no terço e nos mantras católicos, repetia 500 vezes: "Meu filho, cuidado com as companhias".
Um dia, Hermó conheceu Elisa e ele se ajoelhou a seus pés. Para o bem ou para o mal, o gesto foi suficiente para me afastar da garota, que, mais tarde, casou-se com um médico e vive muito bem até hoje em São Paulo. Depois, o homem magro e baixo foi embora, avisando que voltaria para o sertão. Nunca mais o vi, desde então.
Ainda hoje escuto Bob Dylan. Olho para a porta da minha casa, ainda conto com o verde aconchegante das mangueiras e cajueiros. Verifico se tem alguém também ouvindo na porta e, às vezes, peço só com o pensamento para que a adolescência se despregue de mim.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Memória de Fortaleza é destruída porque o cidadão não quer ter saudade de seu passado de miséria

Christiano e Douvina. Foto:Luana Araújo


Quem quer ter memória de seu passado miserável?" Indaga Christino Câmara, no Programa Movimento Urbano, transmitido hoje à noite pela TV O Povo. Entrevistado pela jornalista Cinthia Medeiros, essa foi uma das críticas ferinas disparadas pelo memorialista e pesquisador, que aos 76 anos, sente orgulho de ter nascido e viver até hoje na casa localizada na Travessa Baturité, no Centro de Fortaleza, ao lado de sua mulher Douvina.

A crítica que Christiano faz às elites cearenses têm uma relação com a  degradação ambiental e histórica da cidade, que viu seus principais monumentos sendo destruídos para uma presumida tentativa de desenvolvimento, dentre esses a casa de seu avô e onde nasceu o falecido bispo de Recife e Olinda, dom Hélder Câmara. No entanto, ele reforça: tudo não passa de se querer fugir do passado. Por isso, diz que o memorialista para se ter apoio do Estado ou das próprias elites tem que ficar de boca fechada. Não pode fazer crítica e se limitar a fazer comparações: Antes era assim. Hoje é assim.

Para quem conhece o memorialista como eu conheço, sabe que suas  observações são bem mais contudentes, quando se encontra em seu próprio habitat, a casa com quintal (pasmem) ao lado da Catedral. No entanto, me chamou  a atenção sua preocupação com o"boom" de construções previsto para Copa do Mundo de 2014. Ele teme pelos "elefantes brancos'. Ou seja, obras que serão construídas para turistas, mas que depois sofrerão o desgaste ou abandono por não contar com verbas para a manutenção. É sempre bom lembrar que os estádios construídos na África do Sul estão hoje sendo ameaçados de virem á baixo, porque não há como mantê-los. Uma coisa é construir, observa Cãmara, outra é preservar.


A destruição do patrimônio histórico foi ensejada pela igreja católica, dentre outros empreendedores, como se referiu ao desabamento da antiga igreja da Sé, construida em na década de 1800, passando pelos espigões instalados na Praia de Iracema. Daí que adverte: a natureza não reclama. Ela se vinga. E faz uma profecia aterradora. Um dia o mar deverá cobrar o espaço que lhe foi tomado.

Poderia citar aqui muitos momentos interessantes e instigantes desse personagem que toda a cidade é devedora. Assim como também mostrar que é vidraça e fica meio inapropriado o anacronismo, ao rejeitar a internet, o aparelho celular e recordar os rostos mais bonitos do cinema, aqueles que desfilaram pelas de décadas de 1930 e 1940, como se nos dias de hoje também não houvessem essas beldades. Mas sem Chistiano, quem mais poderia exercer um espírito crítico sobre o criminoso desmanche da história da Cidade? Ele lembra que não devemos chorar como crianças, quando deveríamos ter reagido como homens. Então, solta uma gargalhada. "Dizem que eu fico rindo porque tenho dinheiro. É aquela forma de se asociar alegria sempre ao dinheiro", afirmou.

sábado, 19 de novembro de 2011

A ficção que embalava os sonhos de Maika, a falsa judia



Ha alguma manifestação artística que caberia a história de Maika, a judia. Na verdade, esse não era seu nome verdadeiro e nem tampouco era judia aquela que eu conheci. Sua passagem marcou profundamente minha adolescência e boa parte parte da vida adulta. Fui moldando minha formação e meu gosto literário, bebendo dos livros emprestados daquela mulher morena, de seios volumosos, olhos castanhos e com uma das bocas mais lindas que já tinha visto quando recitava poesias.
O que parace mais distante da mentira é que Maika era uma empregada doméstica de uma judia, que se chamava, essa verdadeiramente, Maika. A fêmea de carne e osso que nos atraía à sua casa com pretextos de saraus, dizia-se parte do Povo Eleito. Há algumas décadas, contava, ascendentes seus vieram ao Brasil, ao conseguir fugir das perseguições nazistas e, sobretudo, dos campo de concentração. Saíram da Bulgária, através de Portugal, e se instalaram num pequeno povoado do interior gaúcho. Pouco se sabe da história de Maika auto ego e a que trazia na sua linhagem a estela de Davi, porque essa ficou ensombreada pela falsa.
Aos poucos, fomos sabendo que herdou a casa, os livros e a identidade da patroa já falecida. Então, posso compreender porque não sabíamos muito das tradições judaicas. Na minha ingenuidade, percebia no primeiro momento que assim como sua cor havia se miscigenado, suas referências intelectuais se tornaram universais, multiraciais e antrópicas.
No entanto, chegamos a imaginar o que aconteceu com a autêntica, pelo que externava a cópia, sempre muito extrovertida, letrada, conhecedora da obra de Jorge Amado (daí passei a amar, primeiramente platonicamente, a Bahia) e os clássicos: T.S Eliot, Ezra Pound e Emily Dickinson. Sabia versos decorados, que entoava com tons equilibrados de dramaticidade ou deslumbramento, dependendo da ocasião. Infelizmente, isso acontecia menos nos momentos em que se encontrava sóbria.
Entre delírios etílicos e sem a definição do que era crível, conviviamos com a antonomásia. Por tanto, soube que havia nascido no Rio Grande do Sul.
Depois, os pais faleceram. Com os recursos deixados pela família veio para ao Nordeste, morando na Bahia, onde teve uma filha, e conheceu o Ceará, onde se encantou com o litoral, o provincianismo e a hospitalidade locais. Sem trabalho e com a velhice avançando, foi se desfazendo dos bens, ficando apenas uma casa com três quartos e uma grande biblioteca, com muitos livros publicados em Inglês e outra parte em Português.
Certa noite, quando eu e um amigo bebíamos em sua casa, ela falou frases numa língua desconhecida. Disse que era hebraico. Não podíamos contestar. Mas quando recitou Terra Arrasada, de Eliot, acompanhei num livro, e vi que na tradução não faltava uma palavra.
O que é verdadeiro ou não nessa história, nunca procurei saber tenazmente. Alguns fatos me foram expostos, quisesse ou não reconhecê-los. Preferi, por muito tempo, acreditar que nada merecia ser questionado e sim lamentado: a descaracterização que via em cada dia no rosto daquela mulher, embriagada e pedindo sempre dinheiro para beber mais.
A dúvida pelo atavismo capenga, o irracional no lugar do racional, o virtual, o simulado e a ficção se sobrepondo o absoluto chegariam a um fim. Não da forma cruel como aconteceu. Contudo, surgiu do fato de que nenhuma mentira perdura a vida toda ou por muito tempo. Cedo ou tarde, alguém desconfia, suspeita, investiga, bisbilhota e desconstrói a fantasia. Aí resplandeceram os apontadores de dedos, os mestres na destruição de sonhos, as serpentes que invadem o paraíso, tal como relata o livro de Moisés.
A doméstica, pela bebida e pela realidade que não conseguia extirpá-la da sua vida, ia ficando feia e desesperada, como personagens de literatura já conhecidos e outros que estariam em elaboração. Já prestes a me despedir dela e do lugar onde vivia, perguntei sem nenhuma pretensão de fazê-la sofrer, sobre que nome gostaria de ter, se lhe fosse dada uma escolha. "Maika. Não consigo me ver sem este nome". E assim viveu o mito, que foi mais resistente do que a verdade.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Quando a poesia, a filosofia, a pintura encontram corações e mentes estéreis



Life returns
BB, de 43 anos, matou um traficante de drogas em Canoa Quebrada. Passou pouco tempo preso, hoje está em liberdade. Assim como o filósofo francês Louis Althusser, que estrangulou sua mulher Hélène Rytman, sendo esse muito mais lembrado pelo surto psicótico do que pelo seu pensamento, BB é praticamente desconhecido "do grande público", pelos seus quadros, talhas e esculturas com o ferro. 
Caminhando pela Praça do BNB, ele me lembra que não fazia muito tempo que a segurança do Centro Cultural o expulsou do lobby. Não havia ressentimento. Mudando rapidamente de conversa, contou que se transformou "num cafetão de responsa", isso aos gritos e provocando risadas em mulheres que passavam pelo local. Estava empolgado e feliz com sua nova namorada, G, de 21 anos, prostituta.
- Ela chegou em casa com R$ 200. Disse que R$ 100 eram meus. Aí eu falei, gata, e o dinheiro que a gente ficou de juntar para o bar? Ela disse que estava pensando em guardar também uma grana para comprar sua casa.
Houve uma discussão.Não consigo imaginar quanta violência foi desprendida, e a moça saltou a janela do apartamento, que fica no terceiro andar. Quebrou o pé, e ele como para-médico autodidata, se deu ao trabalho de fazer o suporte de gesso. Ele me mostrou a fotografia da jovem feita pelo aparelho celular. Ela é  linda, filha de um paraguaio com uma sacoleira cearense. 
BB revê um padre andando pela praça, que o faz lembrar de uma briga, porque esse lhe negou um cigarro charm. Presume estar á caça de um michê. Depois conta que foi expulso de uma reunião de ex-alunos do Colégio Militar e aí parece ser interminável a lista de seus desafetos.
BB me fez lembrar hoje a dificuldade de entender a juventude  no começo do Século XX nos Estados Unidos.  "Jovens que nascem nessa terra dura e tornam-se tão duros quanto ela, insistindo com uma persistência implacável na área de jornalismo, na poesia, no teatro- no entanto, como que fadados à esterilidade para sempre". Assim descreve Edmond Wilson, ao falar do Oeste norte-americano em suas memórias dos Anos 20. Lembrei dessa passagem, porque ás vezes me entristece a palavra esterilidade, quando ela se relaciona à filosofia, à poesia, os bons modos e à gentileza.
Duramente, não há como fazer com que essas coisas do espírito consigam penetrar mentes e corações, assim como a chuva escorre pela pedra. Assim como os gritos de BB são audíveis apenas por alguns metros quadrados. Podemos até compreender o fato de que por ser uma terra de tão poucas oportunidades, temos que tomar atitudes mais pragmáticas, menos românticas e até mais severas, beirando uma violência que atinge o outro e a nós mesmo.
Será que a aridez de nossa região nos deixa ainda mais impermeáveis ao espírito? Vejo nossos pintores, escritores, meus colegas jornalistas, não é menos árdua a luta pela sobrevivência e a vontade de impor novos rumos intelectuais. Muitos sofrem. Outros desistem e alguns, como BB, gritam.

domingo, 10 de abril de 2011

Os jesuítas abraçam pequenas causas. Tudo para a maior glória de Deus

Cruz Missioneira
Quem quiser verificar os dicionários verá que um dos sinônimos para jesuíta é hipócrita. A acusação remonta aos tempos que se tornaram confessores e conselheiros de reis e rainhas. Foi o militar e aristocratica Ignácio de Loyola, que fundou a Companhia de Jesus, em 1540. Naquela época, ele havia se convertido após um ferimento em guerra, e decidiu a colocar seu aprendizado a serviço da igreja Católica. A congregação chegava em boa hora, em vista do crescimento dos adeptos dos protestantes e da necessidade de dar um novo rumo ao catolicismo, que estava a ponto de estourar com uma bola inflada até o limite. Foram importantes na imposição da disciplina, através dos exercícios espirituais, na participação do Concílio de Trento, no século XVI na Evangelização da África, Ásia e o Novo Mundo.
Daí se formaram os padres jesuítas, os mais preparados, mais testados na disciplina, e com maior número de santos(acima de 40), mártires, além de beatos e em processo de beatificação, além de terem colecionados inimigos no mundo inteiro.
No Brasil, as primeiras levas chegaram no governo de Tomé de Sousa. Foram formando missões e reduções, até que o Marques de Pombal os expulsou do Brasil. Pelas suas atitudes, receberam os mais rasgados elogios e as mais radicais críticas. 
Na verdade, atuou sempre como a linha de frente da igreja Católica, uma espécie de tropa de elite. Sua atuação se dá em missões diplomáticas, colégios e comunicação. Agora, os colégios inacionos dividem prestígio com outras unidades particulares, destacando a preparação para o Vestibular, em detrimento da formação humanística do passado, muito embora mantenha o respeito e o reconhecimento da Universidade Gregoriana, em Roma. Também atua nas comunicações e em missões diplomáticas do Vaticano, além do grande número de religiosos que não se interessam mais pelas grandes causas do que pelas pequenas.
Hoje, por ocasião do aniversário do jesuíta Djaílton Pereira, soube que estará celebrando missa no Siqueira, embora não seja sua paróquia. Em outros tempos, esteve em Ererê, no extremo Leste do Estado, já na divisa com o Rio Grande do Norte. Naquela época, sua preocupação era com a saída brusca de boa parte de homens  para trabalhar na colheita em canaviais de São paulo. Ele queria evitar o êxodo e, como um subproduto dessa realidade, o desequílíbrio entre as populações masculina e feminina.
Para o padre Djailton, a espiritualidade de Santo Inácio não é complexa. Ela é simples e ajuda na atualidade a  pessoa manter um rumo, não apenas no plano espiritual, mas inclusive no físico, em se importar com a contemplação e ao mesmo com a ação. Ou como diz o lema da Companhia: "Ad Majorem Dei Gloriam ("Para a maior glória de Deus").

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Carlos Emílio: A crise do capitalismo está apenas no seu início


Por acaso, estive hoje com o romancista cearense Carlos Emílio Correa Lima. Eu e o autor de Cachoeiras das Eras, entre outros romances, conversamos durante uma viagem de ônibus sobre os pintores  Humberto Magalhães e Hermógenes (irmãos), Literatura e Religião. Ficamos ainda todos sem entender a morte repentina de Humberto, que nos seus últimos anos morou sozinho numa casa de praia em Barra Nova, em Cascavel, no litoral Leste.
Sobre literatura, Carlos Emílio diz que tanto vale dizer que a realidade é mais criativa do que a ficção do que quanto a ficção é mais criativa do que a realidade. Não há limites para o absurdo. Existem sim padrões estabelecidos por uma elite que norteiam os caminhos da arte. Na sua opinião, a internet é uma nova religião, com suas normas e estabelecimento de um novo saber. "Religião é conhecimento. Hoje, o conhecimento não está mais com a igreja, mas sim nas redes", comentou.
Para ele, a crise do capitalismo está apenas no seu começo. O fim está para acontecer, à medida que as grandes corporações e instituições financeiras não aguentarem mais as pressões. Assim é uma conversa com Carlos Emílio: ficamos na contemplação de uma cachoeira de sentenças de todas as eras, não importam se fazem ou não sentido. O escritor trabalha com efeitos de frases, como se buscasse uma melodia.