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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Minha dor foi perceber o vazio que Elis Regina nos deixou


Elis Regina (1945-1982) nos deixa um grande vazio. É bem verdade que autores e escritores além de não surgirem fartamente, ainda há aqueles que atravessam grandes desertos criativos, como é o caso do compositor cearense Belchior. Sua falta é num segmento não menos sensível da arte: a interpretação. Marcada pela apresentação histrônica, a voz foi das mais encantadoras da música brasileira, tendo passado por díversos estilos.
Quando Elis morreu, os exames comprovaram alto teor de álcool e cocaína. A reflexão que me veio foi porque as pessoas se drogam. Como jovem me instigava a curiosidade de entender se era por fraqueza ou porque ajudava a ser pessoa ou um artista melhor. Nunca obtive uma explicação convincente, mas que riqueza Elis nos fez herdeiros.
Ela morreu há exatos 30 anos num mês de janeiro. Muito jovem assim como se foram Dolores Duran, na música, Scott Fitzgerald, na literatura, James Dean, no cinema, apenas para citar alguns nomes. E um outro questionamento me vem hoje. Continuariam esses nomes a produzir obras tão maravilhosas ou o que fizeram já bastaram e foram ao limite da criação e doação ou até vagariam estereis estação após estação? Como não tenho resposta, resta o deleite de seus legados.

Assim como nossos pais
Letra: Belchior
Intérprete:Elis Regina


Não quero lhe falar,
Meu grande amor,
Das coisas que aprendi
Nos discos...

Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa...

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens...

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração...

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais...

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando...

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo,
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

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